Resignação nua e violenta

Resignação nua e violenta: Maio 2005

quarta-feira, maio 04, 2005

Meio Beijo

Não leias este texto
Posso ser contagioso
São seis e dezassete
E tu nem sequer gemeste

Eu quero me lambas
És a cura para isso
És a cinza do cigarro
Eu um cinzeiro vazio

Por ti eu me comovo
Senti a tua falta
Muitos anos sozinho
Para morrer na estrada

O teu rosto me fascina

Num quarto emprestado
Sou o mofo da melancolia
Entre os teus lábios-papel

A sala é vermelha
Sem cortinas ou janelas
São seis e trinta e seis
E eu morro dentro de horas

Epidémico torturado
Respiro num passo alterado
Cadáver sujo das tintas
Da tua brutal sinfonia

Descalço o meu corpo
À porta da jaula corrompida
Pela fumaça do cigarro
De uma abstracção indizível

São quase sete horas
Preparas-te o meu velório
Eu permaneço lânguido
Esculpido na fonte do pecado

Por isso diz-me
Necessito compreender

Diz-me
Porque é que
As cicatrizes nos meus lábios
Me queimam e ferem o ente ?!!