Resignação nua e violenta

Resignação nua e violenta: Dezembro 2011

terça-feira, dezembro 20, 2011

Quiromante de madeira

A mão existe numa paisagem esquecida
Como que a essência guardada no bolso
De homens sem carácter abertos de espanto
Falando do mundo mas nem se reconhecerem
Pensam que são e sabem criar
Mas a mão permanece fechada
Porque o homem só a vê trabalhar.

Olhemos com mais atenção para tal frágil ser.
Planícies e montes sob ossos, artérias e veias
Expressa-se melhor que a curvatura de uma planta.
Agita cadencias criando harmoniosas figuras
Doces, bailarinas sombras de mistério
Formas que brincam com a luz e memórias
Trazem à palavra imagens de um perdido passado.

Ó amante esquecida do poeta que quer criar
Massa informe de um boneco de madeira
Tento descobrir-te para construir-me de verdade.
Moldando assim com as minhas próprias armas
- Escapo da regalia do que é ser humano.

domingo, dezembro 18, 2011

Estranha forma de dança

Esboço curvas e pontos na superfície do papel
Ritmos líquidos de imperceptibilidade vazia
Pedaços de um ser inexplicável que sou eu.

Fluo na leitosa carne prensada da árvore
Numa musicalidade que me mata e ressuscita
Qual miopia luminosa, nunca me permiti ler.

Agora preparo-me na perfeita imobilidade do ser
E traço tal singular consciência como sacrifício
(A ponta do lápis que quebra perante tal crente).

Inalo e perco-me num complicado ser inacabado
Afio a casca - derramo cinzas e madeira no papel
Castigo a ponta contra a folha e forço-me a sair

Navego no lado de dentro dos meus olhos
(Fito o acto esquivo no gesto que imprimi)
Fechadura de uma enorme neblina que se recusa abrir
Coexisto em metades - convexos olhos misteriosos

Qual é a certa e a errada?


Penso no vazio

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Pedalo

Ceifo o vento como um pássaro
Corto a hora no minuto.
Solto-me da terra
Fumo no Tic
Bebo no Tac
Entranho-me nas nuvens
Ondulo
Marco a pauta do piano
Deixo de ouvir
Falta a luz
Quero sorrir
Caminho pelos meus sonhos
Largo a bicicleta e corro
Corro por nós
Na tua tristeza e silêncio abatido
Seguro-te pelas assas e voamos
Serpenteamos
Emaranhamos
Construímos
Refazemos bem no alto a nossa casa
O nosso ninho
O nosso abraço
Saímos da estratosfera
Estratoferica nuvem da escuridão
Por um minuto, por dia, por um segundo
Por um tempo
Um tempo que não é tempo
Rasgado pelo espaço
Não é tempo
Não é prazo
Somos incomensuráveis
Ilimitados
Delimitados
1,937,858,709,635,469 horas
Biliões de horas
Milhões de segundos
Et-oma
E não há mais ditos nem desditos